quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crentes e o carnaval


Por: Alomara Andrade e Bruno Barreira
Sai ano, entra ano e a polêmica continua: qual é o lugar do cristão durante o Carnaval? Ele deve sair para retiros espirituais ou para evangelismo nas ruas? Aliás, a controvérsia já começa na origem da chamada “maior festa popular brasileira” – que é praticada em outros países em formatos diferentes e com menor repercussão.
Apesar de inspirado no modelo francês (pelos desfiles, carros alegóricos), o Carnaval do Rio de Janeiro como é hoje se tornou o principal do mundo. Etimologicamente, o termo tem diversas definições, e uma delas é de origem latina – “carnelevarium” – que significa eliminação da carne. Culturalmente, as referências à festividade vêm da Antiguidade (4000 a.C. a 3500 a.C.), passa pelas festas pagãs romanas, é moldada pelo Renascentismo (séculos XIV a XVI) e acaba sendo adaptada em cada grupo social. No final, o que parecia ter sido criado para ser um período de purificação antes da “quaresma”, se tornou algo bem diferente... Deixando de lado as informações históricas, é impossível não perceber como esse período modifica a vida social e cultural do país, e ainda a espiritual.
Além dos tradicionais retiros espirituais, ainda praticados pela maioria das igrejas evangélicas, outras ações, nos últimos 20 anos, em especial o evangelismo, têm ganhado força gradativamente e quebrado alguns paradigmas. Se nos retiros os crentes buscam confraternização e consagração espiritual, fora deles estão dispostos a transmitir o Evangelho de diversas formas. Desde congressos a cultos de louvor até trabalhos sociais, como visitação a hospitais e atividades de rua, sobretudo onde o Carnaval é o foco das atenções, muitas igrejas têm impactado as avenidas do samba.
Em Salvador, a Comunidade Evangélica dos Artistas de Cristo trabalha intensamente semeando a Palavra de Deus em trios elétricos. Em Belo Horizonte, na Expominas, acontece a Cruzada de Fé (www.cruzadadefe.com.br), com a presença de pastores e cantores dos naipes de Oficina G3 e Pamela. No Rio de Janeiro, a Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul (pioneira em evangelização de impacto durante o Carnaval), o Projeto Vida Nova de Irajá, com o ousado bloco Cara de Leão, e a igreja Bola de Neve, já têm preparadas as suas estratégias. Neste ano, surge um detalhe curioso: a Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, de Caxias, no Rio de Janeiro, vai “homenagear” os evangélicos em uma de suas alas.

DEBAIXO DE ORAÇÃO
Uma das primeiras a “abrir caminho” foi a Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, que há mais de 19 anos deixou de fazer retiros espirituais nos cinco dias do Carnaval (que acontece em 2007 entre 16 e 20 de fevereiro). Durante a semana de “folia”, que contagia todo o país, a igreja promove a Conferência de Avivamento, um culto feito antes das concentrações para o evangelismo entre os foliões, que inclui oração, palestras e jejum. O pastor Marco Antônio Peixoto, responsável pelas atividades, não nega a importância do tradicional retiro. Ele diz que essa escolha permanece válida, pois é correto que evangélicos se retirem para buscar a Deus. Mas, no caso da Comunidade, os fiéis tomaram a decisão como um desafio evangelístico. “Fomos os pioneiros dessa estratégia e a realizamos com sinceridade, trabalho, jejum e oração. Reunimos mais de três mil pessoas desfilando ao som de um trio elétrico, cantando hinos de louvor, só que num ritmo mais alegre. A cada 100 metros, paramos e pregamos o Evangelho”, descreve.
Pastor Marco Antônio ressalta a seriedade do trabalho e diz que alguns chegam mesmo a pensar que tudo não passa de uma festa, mas quem pára e acompanha o evento logo percebe que a ministração provém de um evangelismo comprometido. “Durante muito tempo, a igreja ficou fechada dentro de quatro paredes. Devemos sair para as ruas e levar a mensagem de libertação. Muitas pessoas pensam que é oba-oba, mas não é. Trata-se de um trabalho realizado debaixo de muita oração”, afirma o pastor, ressaltando que na primeira epístola de João, capítulo 4, versículo 4, está escrito: “Maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo”.
Com o projeto evangelístico, que recebe o nome bloco Cara de Leão, muitas pessoas aceitam a Cristo e outras várias que estavam desviadas voltam a confessar o nome do Senhor. Segundo relatos de quem acompanha o projeto acontecem casos em que os foliões retiram as fantasias, deixam as máscaras caídas no chão e passam a seguir o grupo. De acordo com os organizadores, o preparo do bloco Cara de Leão é feito com três meses de antecedência. O trabalho do bloco despertou a atenção de evangelistas do mundo inteiro. Atualmente, cerca de duas mil pessoas participam do bloco. Só o corpo da bateria é composto por mais de trezentas pessoas.
No site do Projeto Vida Nova (www.projetovidanova.com.br) existe uma página com fotos dos ensaios e vídeo com mais explicações sobre o evento. Para o organizador do projeto a campanha não se trata apenas de batuque, segundo ele: “É um evangelismo estratégico de Carnaval. Saímos às ruas declarando que Jesus não oferece apenas quatro dias de alegria, mas uma vida inteira. Não uma falsa alegria, mas uma alegria verdadeira.”, explica, lembrando que nos ensaios de bateria, por exemplo, há também muita oração, não apenas batucadas.

ESCOLA DE SAMBA ACADÊMICOS DO GRANDE RIO QUER “HOMENAGEAR” EVANGÉLICOS
Por: Ana Cleide Pacheco
Assembléia dos Protestantes: este é o nome da fantasia que vai “homenagear” os evangélicos no desfile da Escola de Samba Grande Rio (www.granderio.org.br/detalhes.asp), no carnaval carioca deste ano. A idéia da agremiação de Caxias, cujo enredo contará a história da cidade, é retratar a fé da população. Para isso, juntou numa fantasia elementos e símbolos católicos e, principalmente, protestantes.
Os “evangélicos” estarão inseridos no mesmo setor que também homenageará Joãozinho da Goméia, um conhecido ‘pai-de-santo’ de Caxias, nos anos 40, 50 e 60. De acordo com o carnavalesco da escola, Roberto Szanieck, a intenção não é polemizar e, sim, mostrar que o mundo melhor almejado pelo caxiense também passa por sua fé.
Bem estilizada, a fantasia “ecumênica” lembra uma túnica, tendo ainda na parte da frente um coração com duas pombas, fazendo menção ao símbolo de uma conhecida igreja evangélica brasileira. O esplendor (adereço preso aos ombros) traz o báculo, espécie de cajado usado pelos bispos católicos, e um livro semelhante à Bíblia. Milton Perácio, diretor do Carnaval, acredita que não haverá polêmica, mas diz estar preparado para tudo. “Caxias tem um sincretismo religioso e é isso o que vamos mostrar, a fé, independentemente de religião”, afirma, sinalizando que a proposta não é exaltar ou ofender qualquer credo.
Para o pastor Marco Antônio Peixoto, da Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul (CEIZS), localizada na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, inserir evangélicos num desfile de escola de samba na Apoteose trata-se de uma estratégia de marketing. “Os evangélicos têm crescido muito no Brasil. Atualmente, ser crente ‘dá Ibope’. Talvez por isso esta escola de samba esteja utilizando este artifício. Não há significado em falar dos evangélicos sem falar do objetivo principal do cristianismo, que é a mensagem da salvação em Jesus Cristo”, argumenta.    

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